As voltas e reviravoltas que o mundo dá
Diz-se que, em eras tão distantes que até o tempo hesita em recordá-las, havia um reino erguido sobre colinas de névoa e esperança. Ali governava um rei chamado Amor – soberano silencioso, generoso por essência, adorado por multidões que, paradoxalmente, jamais lhe haviam visto o semblante. Era uma devoção construída mais pelos sussurros do imaginário do que pela certeza da presença.
O rei, cansado de viver como rumor, sentiu dentro do peito um chamado novo e profundo: a necessidade de se revelar. Percebeu que sua força, tantas vezes celebrada, não bastava enquanto ele próprio permanecesse oculto atrás de símbolos. Então decidiu: era tempo de declarar sua verdade e escolher, ao seu lado, uma rainha que lhe ajudasse a sustentar o reinado.
Duas princesas surgiram para disputar sua atenção – tão distintas entre si quanto o amanhecer e o crepúsculo.
Razão, fina como um traço de bússola, caminhava com passos métricos. Carregava nos olhos a ordem que organiza mundos, e nas mãos, a calma exata dos que compreendem o peso das escolhas. Falava em linhas retas, encadeando coerências como quem tece um véu de cristal.
Emoção era o avesso desse desenho: corria como vento desobediente, saltava muralhas, não se curvava à lógica. Trazia no corpo a impermanência das marés e, na alma, o incêndio breve e luminoso das coisas que não pedem explicação – apenas vivência.
O rei Amor, ao contemplá-las, sentiu-se dividido entre o conforto da estabilidade e o arrepio da liberdade. Ambas lhe despertavam algo precioso: o calor que faz pulsar o mundo.
Assim chegou o grande dia. Toda a população se reuniu diante do castelo – aquele castelo que, para muitos, não passava de lenda. O rumor de que o rei enfim se mostraria espalhou-se como um raio de sol rompendo nuvens antigas.
E então… ele apareceu.
O brilho de sua presença foi tão intenso que os olhos do povo buscaram refúgio na sombra. Não era luz que feria: era luz que revelava. E diante dela, todos sentiram a vulnerabilidade de quem finalmente vê aquilo que sempre acreditou existir.
O silêncio que se seguiu não era medo, mas reverência.
O rei Amor abriu os lábios – porém nenhuma palavra se fez som. Apenas um gesto breve, quase um adeus. E num instante tão súbito quanto um sopro divino, dissipou-se diante de todos, deixando no ar um único recado:
“Já não pertenço a este reino.
Parto para a Ilha da Ilusão.
Que vos governem, doravante, Razão e Emoção”.
A multidão, atônita, sentiu o chão vacilar. Não sabiam se presenciavam o fim de uma era ou o nascimento de outra. A ilha para onde o Amor partira – esse território estranho, de nome quase proibido – parecia engolir todo o sentido do que antes era certeza.
E ali, naquele mesmo instante, Razão e Emoção ascenderam como rainhas eternas. Conduziriam o reino juntas, embora cada uma segurasse o cetro à sua maneira: uma com cálculo, outra com impulso. A população, sem o Amor para guiá-la, aprenderia aos poucos que o equilíbrio entre as duas seria o único caminho possível para não se perder de si.
Ninguém soube dizer se aquilo era tragédia ou renascimento. Mas, como toda história luminosa, deixou uma verdade escondida nas entrelinhas:
Quando o Amor se retira, o mundo segue – mas nunca mais da mesma forma.
E assim começou – ou terminou – a jornada de todo aquele povo. O reino, agora governado pelas duas rainhas, aprenderia a caminhar entre certezas e tempestades, sempre à procura daquele rei que, um dia, talvez retornasse… ou, talvez não.
Porque a Ilha da Ilusão, dizem, é morada daqueles sentimentos que o coração humano não soube proteger a tempo.
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De Brasília: Virgilio Galvão 2025












