Isso parece impossível mas, chega a hora que…
Há quase vinte anos, eu pedi demissão de um emprego que, no início, eu tratava como o trabalho dos sonhos. Lembro como se fosse ontem. Eu me recordo da exata sensação que tive ao comunicar a minha saída. Alívio. Apesar do medo que o coração carregava sobre os meus próximos passos, os ombros ficavam mais leves e eu dizia, por dentro: “ufa, acabou”.
A gente vive numa sociedade em que, custe o que custar, o importante é conseguir. Glorificamos a persistência sem considerar qual o preço a ser pago. Será que a conta pode mesmo vir alta demais? “Siga firme”, “aguente um pouco mais”, “Não desista”… E, enquanto isso, poucos admitem que certas insistências custaram caro demais. Que há relações, projetos, empregos e ideias que exigem de nós uma energia que já não existe e nem deveria existir. E que insistir, nesses casos, pode significar um outro tipo de abandono: o da gente mesmo.
É claro que saber quando desistir não é exatamente fácil. Mas sinto que ter clareza dos valores que são inegociáveis para nós pode balizar essa escolha. Desistir, enfim, também é possibilidade de caminho. Fechar uma porta pode abrir um pedaço interno até então aprisionado. E talvez seja sobre isso que o psicanalista Adam Phillips queira conversar quando escreve Sobre desistir: o quanto insistimos por teimosia, hábito ou expectativa, e o quanto largar algo pode ser, paradoxalmente, um gesto de cuidado e de abertura para algo melhor.
Phillips sugere que desistir abre espaço para uma vida que ainda não conhecemos. Não se trata de deixar pra lá algo importante num ato impulsivo e inconsequente. Pelo contrário. A decisão da desistência envolve um processo de luto, e do reconhecimento de que, após diversas tentativas, é hora de reconhecer o fim. E, então, é preciso deixar morrer uma expectativa, um ideal, uma imagem bonita que construímos sobre quem deveríamos ser.
Mas, se por um lado essa decisão é difícil porque parece desmoronar a nossa identidade, por outro, ela também liberta, porque nos devolve a possibilidade de viver algo com mais sentido. No fundo, desistir é se fazer perguntas: o que disso ainda me pertence? O que estou sacrificando para continuar?
Hoje, quando olho para trás, consigo parabenizar aquela versão minha que assinou um pedido de demissão mesmo sem saber onde a vida poderia levá-la. Consigo reconhecer como ela foi leal em não tentar se perder, em vez de sustentar o insustentável apenas para não parecer uma perdedora. Afinal, não há nenhum fracasso em deixar ir. Nem um emprego, nem um amor, nem uma oportunidade que no começo parecia boa, mas que, com o tempo, roubou o que você tinha de mais precioso.
Talvez, antes da gente se perder por completo, vale fechar os olhos e escutar o que o corpo tem guardado para nos dizer. Desistir de certos lugares, pessoas ou relações pode trazer dor, mas com ela também vem o alívio. Findar um ciclo significa sim uma perda, um luto. Mas são os fins que abrem espaço para os novos começos.
Que sua semana comece melhor..!
Com carinho: Débora Zanelato (@deborazanelato)
Diretora de Conteúdo da Vida Simples












