EDITORIAL – Santa Catarina passada a limpo

Mais um prefeito é preso por desvios na prefeitura

Santa Catarina atravessa um dos mais relevantes processos de depuração institucional de sua história republicana. Em pouco mais de quatro anos, uma sucessão de operações conduzidas pelo Ministério Público, pelo Gaeco, pela Polícia Civil e pelo Poder Judiciário revelou a existência de esquemas estruturados de corrupção dentro de prefeituras catarinenses, especialmente em contratos de serviços essenciais como coleta de lixo, limpeza urbana, iluminação pública, saneamento e terceirizações administrativas.

Não se trata de casos isolados, mas de um padrão criminoso repetido em dezenas de municípios, sustentado por fraudes em licitações, pagamento de propinas, lavagem de dinheiro e captura do aparelho público por organizações privadas. As investigações demonstraram que o que parecia um simples contrato de prestação de serviços escondia, em muitos casos, um mecanismo permanente de drenagem de recursos públicos.

UM NÚMERO SEM PRECEDENTES

Levantamentos consolidados pela imprensa e por dados oficiais do Ministério Público de Santa Catarina indicam que entre 28 e 30 prefeitos catarinenses tiveram prisão decretada ou foram detidos em operações anticorrupção entre 2020 e janeiro de 2026. O número inclui prisões preventivas, temporárias e detenções seguidas de medidas cautelares.

Com 295 municípios, isso significa que cerca de 10% das cidades do Estado tiveram seus chefes do Executivo alcançados por investigações criminais dessa natureza, uma proporção sem paralelo no Brasil contemporâneo.

O caso mais recente foi o de Garopaba, cujo prefeito foi preso em janeiro de 2026 em investigação da Polícia Civil que apura fraudes e corrupção em contratos de coleta e reciclagem de resíduos sólidos, ampliando ainda mais essa estatística.

AS OPERAÇÕES QUE REDESENHARAM O MAPA POLÍTICO

Esse processo de limpeza institucional foi impulsionado por um conjunto de grandes operações, entre as quais se destacam:

  • Operação Et Pater Filium (2020–2021) — que atingiu prefeituras do Planalto Norte em esquemas de obras e contratos públicos;
  • Operação Mensageiro (desde 2022) — a maior da história de Santa Catarina, voltada à corrupção em contratos de lixo, água, iluminação e serviços terceirizados;
  • Operação Terra Nostra (2024) — que alcançou a prefeitura de Urussanga;
  • Operação Fundraising (2024) — que investigou contratos de consultoria e captação de recursos em vários municípios;
  • Operações Limpeza Urbana e Coleta Seletiva (2025–2026) — conduzidas pela Polícia Civil, com foco direto nos contratos de resíduos sólidos, incluindo o caso de Garopaba.

As investigações não se limitaram aos prefeitos. Elas envolveram vice-prefeitos, secretários municipais, servidores públicos e empresários, resultando em dezenas de mandados de prisão e mais de 200 buscas e apreensões nas fases mais intensas da Operação Mensageiro.

Entre os prefeitos que tiveram prisão decretada ou foram detidos nesse conjunto de investigações estão gestores de cidades como Lages, Tubarão, Itapoá, Guaramirim, Capivari de Baixo, Pescaria Brava, Papanduva, Imaruí, Balneário Barra do Sul, Urussanga, Canoinhas, Corupá, Ibirama, Massaranduba, Schroeder, Barra Velha, Ipuaçu, Pinheiro Preto, Cocal do Sul e, agora, Garopaba, entre outras.

JUSTIÇA QUE COMEÇA A PRODUZIR EFEITOS

As ações penais decorrentes dessas operações já começam a produzir resultados concretos. Condenações foram proferidas em diversos processos, especialmente no âmbito da Operação Mensageiro, com penas que, somadas, se aproximam de 900 anos de prisão entre os réus julgados até o momento. Trata-se de um marco histórico no enfrentamento à corrupção municipal em Santa Catarina.

EFEITO DIRETO SOBRE A DEMOCRACIA LOCAL

O impacto desse processo foi sentido de forma clara nas eleições municipais de 2024, quando prefeitos presos, afastados ou judicialmente impedidos alteraram profundamente o quadro eleitoral de dezenas de cidades. A instabilidade administrativa, a quebra de alianças tradicionais e a emergência de candidaturas de renovação foram reflexo direto desse abalo institucional.

Para 2026, o desafio se impõe ao Estado como um todo: transformar a repressão penal em mudança estrutural, fortalecendo controles, transparência, compliance público e fiscalização permanente dos contratos.

O PAPEL DA IMPRENSA E DA SOCIEDADE

A Folha do Estado SC reafirma que não há combate efetivo à corrupção sem imprensa livre, técnica e vigilante. A exposição dos fatos, o acompanhamento dos processos e a cobrança pública são instrumentos essenciais para que esse ciclo não se repita.

Santa Catarina está sendo passada a limpo, não por acaso, mas porque instituições funcionaram e a sociedade passou a exigir respostas. O futuro do Estado depende de que esse processo não seja episódico, mas permanente.

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Folha do Estado SC

 

Redação
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Portal do notícias Folha do Estado especializado em jornalismo investigativo e de denúncias, há 20 anos, ajudando a escrever a história dos catarinenses.
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