Como o extremismo corrói as instituições e pavimenta o caminho para o autoritarismo
Nos episódios anteriores desta série editorial Entre Vozes e Muros, refletimos sobre o fanatismo e o seu poder de transformar cidadãos em militantes de ideias vazias, bem como sobre a empatia como uma ferramenta política capaz de desarmar o ódio e restaurar a civilidade no debate público.
Hoje, seguimos um passo adiante: falamos sobre o preço que a democracia paga quando essas virtudes – o pensamento crítico e a empatia – são sufocadas pelo extremismo.
Uma democracia não se destrói de um dia para o outro. Ela é corroída aos poucos, nas pequenas concessões, nos silêncios cúmplices, nas palavras que deixam de ser ditas – e nas que passam a ser gritadas com ódio.
O extremismo, seja de que lado for, não convive bem com as instituições democráticas. Porque a democracia exige moderação, diálogo e respeito à pluralidade – tudo aquilo que o extremismo abomina. E é por isso que, onde ele prospera, os pilares da democracia começam a balançar.
O primeiro pilar atacado costuma ser a liberdade de imprensa. Para o extremista, uma imprensa livre é um obstáculo. Afinal, quem questiona e fiscaliza é tratado como inimigo, e não como parte essencial do sistema democrático. A imprensa passa a ser alvo de campanhas de deslegitimação, de censura velada, de ataques sistemáticos.
Depois vem a tentativa de enfraquecer a independência dos poderes. O extremismo tenta subordinar o Judiciário e o Legislativo ao Executivo ou à sua própria narrativa ideológica. Quem defende a separação dos poderes passa a ser acusado de conspirar contra a vontade popular. Instituições independentes são pintadas como antidemocráticas – um paradoxo que confunde e divide a sociedade.
O direito à oposição também é visto como ameaça. O extremista não quer adversários – quer inimigos a serem eliminados do debate público. Cria-se um ambiente onde criticar o governo ou uma ideologia se torna um ato perigoso, cercado de intimidação, perseguição e cancelamento.
Por fim, o pluralismo de ideias é sistematicamente atacado. A lógica é simples: só há uma verdade legítima – a do grupo extremista. Qualquer opinião divergente é criminalizada, ridicularizada ou silenciada. Assim, o terreno está preparado para que floresçam o autoritarismo e o populismo.
É nesse ambiente, de instituições fragilizadas e sociedade polarizada, que surgem os regimes que começam a restringir direitos, perseguir minorias, controlar a imprensa e concentrar poder. A história nos ensina: o autoritarismo se alimenta da erosão democrática promovida pelo extremismo.
Defender a democracia é, portanto, um exercício diário. Não basta votar. É preciso defender a liberdade de imprensa, a independência dos poderes, o direito à oposição e o pluralismo de ideias – mesmo (e principalmente) quando isso nos obriga a ouvir o que não gostamos.
Porque uma democracia frágil é um convite ao desastre. E cabe a cada um de nós, impedir que os muros da intolerância sufoquem as vozes da liberdade.
Leia também os episódios anteriores da série Entre Vozes e Muros: Episódio I – O Fanatismo e a Morte do Diálogo. Como a lógica de “nós contra eles” destrói pontes e fortalece muros. http://folhaestado.com/o-fanatismo-e-a-mente-de-pedra-serie-entre-vozes-e-muros-episodio-i/
Episódio II — A Empatia como Ferramenta Política. Gandhi venceu um império sem disparar um tiro. E nós, o que temos feito com as palavras?
Leia: https://folhaestado.com/serie-editorial-entre-vozes-e-muros-episodio-ii/.
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Por José Santana – Especial para o Folha do Estado SC




























