O SONHO DA MANHÃ

Será que os sonhos são avisos?

Será que podem prever o futuro ou apenas confundem nossa mente cansada?

Não tenho a resposta. Talvez esta história ajude a encontrar uma. Talvez não.

Depois de lê-la, reflita e responda você mesmo.

Era uma manhã de sábado. Eu havia decidido dormir na casa da minha mãe. Não por obrigação, mas por escolha. Gostava de estar ali.

A casa dela tinha um ritmo próprio: a cozinha pequena com os azulejos que ela mesma escolheu, a mesa quadrada no canto onde as conversas se prolongavam, o cheiro de comida simples e boa que nunca abandonava as lembranças.

Naquele tempo, ela se recuperava de uma cirurgia de catarata. Coisa simples, diziam os médicos, mas eu percebia nela uma sensibilidade nova. Quando a olhei nos olhos, vi neles um brilho diferente, quase frágil, como se o coração falasse através do olhar.

Sentamos juntos. Conversamos. Pequenas histórias, lembranças, risos curtos.

Nada extraordinário – mas era isso que tornava tudo tão especial. Meu filho estava conosco. Pedimos pizza, rimos, falamos da vida. E naquela simplicidade havia um aconchego que só uma mãe sabe dar.

Antes de dormir, beijei sua testa. Ela segurou minha mão e, com os olhos marejados, disse que era grata por eu cuidar dela. Não precisava dizer mais nada. Aquilo bastou.

Naquela noite, sonhei.

Entrei no quarto dela e tudo estava escuro. Caminhei até a janela, puxei a cortina e chamei:

– Mãe… Mãe…

Não respondeu.

O coração apertou. Corri até a cama. Ela estava deitada de bruços, os cabelos caídos sobre o rosto e o corpo. Toquei suas costas e chamei outra vez.

Foi então que ela se virou. E sorriu.

Um sorriso inteiro, luminoso, como se nada no mundo pudesse apagá-lo.

Acordei com esse sonho gravado em mim. Ele me acompanhou durante a semana. Não contei a ninguém. Guardei em silêncio. Talvez por medo, talvez por não saber explicar.

Dias depois, voltei a dormir na casa dela. Cheguei tarde. Conversamos, rimos, mas percebi que havia uma sombra de tristeza em seu olhar. Aquilo me incomodou, mas deixei passar.

Fomos dormir.

Na manhã seguinte, acordei cedo para o trabalho. Meu filho ficou lá, ainda adormecido. Quando voltei, encontrei-a deitada.

Disse ao meu filho:

– Vou comprar as coisas de que ela gosta. Quando eu voltar, você a chama para o café.

Saí. No caminho, o telefone tocou. Era meu filho. Ele dizia que a chamava, mas ela não respondia.

Corri de volta. Entrei no quarto. A mesma escuridão do sonho. Caminhei até a janela, puxei a cortina e chamei:

– Mãe… mãe…

Nada!

Fui até a cama. Toquei suas costas, como no sonho. Mas ela não se virou. Não sorriu.

E então fiquei com a pergunta: será que aquele sonho foi um aviso?

Será que os sonhos podem mesmo anunciar o futuro?

Ou será apenas a mente preparando o coração para o que não pode evitar?

Não sei. Talvez nunca saiba.

O que sei é que ela não está mais aqui.

Mas também sei que ela marcou a minha vida para sempre.

E sempre vai marcar.

Mas e agora, qual sua opinião?

———————

Por Virgílio Galvão

 

 

 

 

Redação
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Portal do notícias Folha do Estado especializado em jornalismo investigativo e de denúncias, há 20 anos, ajudando a escrever a história dos catarinenses.
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