PRIMOTE VG – O FURACÃO QUE VIROU BRISA

Devemos viver a cada minuto a intensidade que Deus nos permite, pois a vida é um sopro. Apenas viva, fazendo dos simples momentos uma eterna lembrança

Ele era um garoto furacão. Não havia limites para sua energia. Eu me lembro do barulho dos pés, da correria, da respiração ofegante que parecia anunciar que a vida não podia esperar. Tudo nele era urgente, tudo nele era agora. Corria em círculos, tropeçava nos próprios pés, ria da queda e logo inventava uma piada para transformar a dor em brincadeira. Abraçava com tanta força que parecia querer segurar o mundo inteiro dentro dos braços pequenos. Queria estar grudado, colado, como se a vida fosse curta demais para a distância.

O consultório, para ele, nunca foi um lugar de medo. Enquanto tantas crianças choravam diante da cadeira do dentista, ele ria. Transformava aquele espaço em um parque de diversões. A cadeira era foguete, o barulho do motor um avião que decolava rumo ao desconhecido. A seringa? Uma nave espacial. E eu, que deveria ser a figura séria e controladora, acabava cedendo aos encantos daquele menino. Tentava impor ordem: “fique quieto”, “abra a boca”, “não se mexa”. Mas, no fundo, eu sabia que era impossível. O vento não se prende. O furacão não se doma.

Esse espírito livre se tornava ainda mais impressionante diante do que ele carregava. Uma doença grave, daquelas que fazem a gente repensar a vida, já fazia parte de sua história desde cedo. Mesmo assim, ele não se rendia à dor. Ou talvez soubesse, melhor do que todos nós, que a vida é frágil demais, e justamente por isso precisava ser vivida com intensidade. Ria como quem sabia um segredo que os adultos desconheciam. Corria como quem sentia o tempo escapar.

Nos corredores do hospital, onde o silêncio pesava como chumbo, ele se transformava. Enquanto crianças e pais enfrentavam o medo e a dor, ele soprava alegria. Fazia piadas com os tubos de soro, dava nomes engraçados aos medicamentos que queimavam suas veias, criava histórias improváveis que arrancavam sorrisos de quem já havia esquecido como sorrir. Eu o observava e pensava: se a vida tivesse mais pessoas como ele, a dor seria menos cruel. Ele não apenas enfrentava o sofrimento: ele o desarmava.

E venceu. Passou pelos ciclos de quimioterapia, enfrentou os efeitos colaterais, desafiou o impossível. Venceu.

Mas vencer tem um preço. Ele cresceu.

E crescer, tantas vezes, é mais doloroso do que enfrentar a própria morte. Porque crescer é acordar para as duras verdades do mundo. É perceber que nem sempre a vida recompensa quem luta. Que nem sempre há justiça. Que os homens podem ser cruéis, egoístas, indiferentes. Aos poucos, o furacão foi se tornando uma brisa fraca.

Ele conheceu a depressão. Conheceu a amargura, a desilusão, a exclusão. Descobriu que a ganância pode roubar a pureza dos gestos, que o egoísmo pode sufocar até os corações mais generosos. E começou a se perguntar: de que adiantou vencer tantas batalhas contra a morte se agora precisava viver em um mundo caótico, desumano, sem espaço para a ternura?

Essa crise existencial foi se instalando devagar, como uma sombra que avança sem pressa, mas sem recuar. O menino que antes ria até do próprio medo já não encontrava motivos para rir. O brilho dos olhos diminuiu, as gargalhadas se transformaram em longos silêncios. O furacão que varria dores, rearrumava destinos e soprava vida tornou-se uma brisa cansada.

E então ele passou. Como passam as estações, como passam as marés. Simplesmente passou.

Mas não para mim.

Dentro de mim ele continua vivo. Quando fecho os olhos, ainda o vejo correndo em círculos, ainda ouço suas piadas, ainda sinto os abraços apertados. Quando penso nos dias de hospital, consigo escutar as gargalhadas que quebravam o silêncio mais cruel. Para mim, ele não se tornou brisa passageira. Para mim, ele ainda é furacão.

E talvez seja isso que a vida nos ensine. Há pessoas que não desaparecem. Elas mudam de forma, mudam de lugar, mas permanecem. Sopram dentro de nós. Sopram como lembrança, como saudade, como aprendizado. Sopram como vento que nunca deixa de existir, mesmo quando já não pode mais ser sentido na pele.

Ele passou pelo mundo como um furacão, mas deixou em mim a certeza de que a vida só vale quando é vivida com intensidade. E essa lição, ninguém pode apagar.

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Por Virgílio Pimentel Galvão

Redação
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Portal do notícias Folha do Estado especializado em jornalismo investigativo e de denúncias, há 20 anos, ajudando a escrever a história dos catarinenses.
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