Texto do Tratado de Livre Comércio será assinado no próximo dia 17 de janeiro
As negociações entre a União Europeia e o Mercosul começaram oficialmente em 2000, quando os dois blocos iniciaram o diálogo para a criação de uma ampla área de livre comércio. Após mais de duas décadas de tratativas, em 9 de janeiro de 2026, a maioria dos países da União Europeia aprovou formalmente o tratado, abrindo caminho para a assinatura prevista para 17 de janeiro de 2026, no Paraguai.
O acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul não deve ser interpretado como um simples gesto de aproximação diplomática entre continentes. Trata-se, na verdade, de uma operação estratégica de alto nível, em um mundo que passa por profunda reorganização geopolítica, marcada por disputas comerciais, conflitos energéticos e pela reconfiguração das cadeias globais de suprimentos.
A Europa busca, por meio desse tratado, garantir acesso estável a alimentos, minerais estratégicos e energia limpa, ao mesmo tempo em que reduz sua dependência de mercados politicamente instáveis ou de potências concorrentes, como Rússia e China. Já o Mercosul — e em especial o Brasil — enxerga no acordo a oportunidade de ampliar exportações, atrair investimentos e acessar um dos mercados mais sofisticados do planeta.
Para o Brasil, as vantagens são objetivas. A redução e eliminação de tarifas europeias pode ampliar significativamente as exportações de produtos agroindustriais de maior valor agregado, como carnes processadas, café industrializado, frutas, sucos, etanol, açúcar refinado e alimentos com certificação de origem. Setores industriais como autopeças, calçados, papel e celulose, produtos químicos, máquinas agrícolas e equipamentos elétricos também podem ganhar acesso preferencial a um mercado de alto poder aquisitivo.
Outro benefício estratégico é a atração de investimentos diretos europeus. O acordo cria um ambiente mais previsível para que empresas da União Europeia instalem fábricas, centros logísticos e polos tecnológicos no Brasil, gerando empregos, arrecadação e transferência de know-how. Em um cenário global de disputa por cadeias produtivas, o país pode se posicionar como plataforma industrial e exportadora para o Atlântico Sul.
No entanto, o verdadeiro desafio está na arquitetura econômica do tratado. A história latino-americana demonstra que a abertura comercial, quando estruturada de forma desigual, tende a consolidar dependências. Exportar grandes volumes de commodities e importar produtos de alto valor agregado gera crescimento estatístico, mas não produz soberania econômica.
A União Europeia mantém um dos sistemas de subsídios agrícolas e industriais mais robustos do mundo, além de um complexo aparato regulatório que frequentemente funciona como barreira não tarifária. Ao mesmo tempo, exige ampla abertura dos mercados do Mercosul, o que pode pressionar setores sensíveis da indústria nacional.
A pauta ambiental, embora legítima e necessária, também precisa ser aplicada com equilíbrio. O combate ao desmatamento e à degradação ambiental é um dever do Brasil, mas não pode ser convertido em instrumento de protecionismo disfarçado, capaz de excluir produtores brasileiros que atuam dentro da legalidade.
O ponto decisivo é que o acordo só será vantajoso se for utilizado como ferramenta de transformação produtiva. Isso significa condicionar o acesso ao mercado europeu à geração de valor no território nacional, exigir investimentos industriais, inovação tecnológica e integração às cadeias globais de maior complexidade.
Se o Brasil e o Mercosul aceitarem o papel de meros fornecedores de matérias-primas, o acordo poderá aprofundar um modelo histórico de dependência. Se, ao contrário, utilizarem o tratado como alavanca para diversificar a economia, fortalecer a indústria e ampliar a autonomia tecnológica, o acordo poderá inaugurar um novo ciclo de desenvolvimento.
O acordo UE–Mercosul não é apenas um tratado comercial.
É uma escolha estratégica sobre que tipo de país o Brasil pretende ser no século XXI
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Texto: José Santana




























