Comece bem sua semana, e não esqueça que as amizades têm que ter limites

A Ana é dessas pessoas que gostam de ajudar. É sempre solícita e pronta quando precisam dela. Mesmo sem perceber, ela se desdobra em mil para atender a quem precisa. Seja gente da família, do trabalho, ou entre amigos. Ela é aquela mulher boazinha, sabe?
Nossa amizade já tem mais de vinte anos, e lembro até de como a voz dela era diferente – sempre meiga – mesmo quando queria dizer algo que a estava desagradando. Ela quase pedia desculpas por não gostar do que tinha acontecido. No trabalho, acata as demandas mirabolantes do chefe abusivo (afinal, chefe é chefe) e já teve burnout. Viveu relacionamentos com homens que quase nunca escutavam os desejos dela de verdade. E penou até entre as amizades, nem sempre genuínas do lado de lá.
Como a gente reconhece o que a gente conhece, eu também já fui muito como a Ana. Até entender que agradar foi a forma que a gente encontrou para se sentir amado, aceito, reconhecido. O problema é que, essa brecha no nosso amor próprio e autoestima, abre uma fresta perigosa para o relacionamento com muita gente que vai se aproveitar disso . E o estrago é imenso.
Clarissa Pinkola Estés tem um trecho de Mulheres Que Correm Com os Lobos que eu acho perfeito: “A recompensa por ser boazinha, em circunstâncias opressoras, é a de ser mais maltratada. Embora a mulher sinta que, se for ela mesma, estará se afastando dos outros, é exatamente essa tensão psíquica que é necessária para criar alma e promover mudanças”, escreveu a psicóloga junguiana.
Talvez as mulheres, por um contexto histórico e patriarcal, sofram mais a opressão em corresponder a um ideal de submissão. Mas esse texto não é só para elas. E, sim, para qualquer um de nós que se perceba por vezes ressentido, chateado, cansado e até maltratado por “ser bonzinho demais”. Claro, porque a conta abusiva não fecha.
Com essa mensagem, não quero em hipótese nenhuma culpabilizar quem já sofreu os mais diversos abusos. E nem dizer que ser gentil e generoso é ruim, pelo contrário. Mas, sim, compartilhar um olhar de que, em diversas vezes, a gente precisa aprender a se proteger para não se prejudicar. Afinal, não dar limites para o outro é ferir a si mesmo. Limite é saber o que é inegociável para cada um. É saber até onde a gente consegue ir em uma relação sem se maltratar. Sem descuidar da gente mesmo. Limite não é só “dizer não para os outros”. É dizer sim para si. É se preservar para seguir caminhando com mais tranquilidade nessa vida. Com mais saúde mental, mais paz interior.
A tarefa é dolorosa (e o medo de todo mundo nos dar as costas existe, mas não é real). Porém, intransferível. Daquelas coisas que só a gente pode fazer. E que bom. Afinal, é cultivando esse respeito e amor próprio que também peneiramos as relações que valem à pena. E reconfiguramos aquelas que vinham custando caro demais. Se custa a minha paz, o meu auto-amor, a minha sanidade, custa algo que não estou disposta a pagar. E isso é legítimo demais.
Por isso, meu convite nesta semana é que você possa, amorosamente, se escutar. Reconhecer se está cabendo em certos lugares ou se estão espremendo de você aquilo que nem você tem mais pra oferecer. Que você possa se nutrir de amor, e das coisas que ama. E se fortalecer no seu lugar de pessoa boa. Boazinha, não mais!
Uma ótima semana!
Débora Zanelato (@deborazanelato)
Diretora de Conteúdo da Vida Simples












