Prefeito de Floripa dá uma de Trump e quer deportar visitantes indesejáveis

A mecanização e consequentemente a automação do maquinário utilizado no campo excluiu milhões de postos de trabalho na área rural. Isso obrigou que muita gente deixasse as grandes plantações e demandasse às cidade na busca de trabalho – mesmo com o mínimo de qualificação.
A recente decisão do prefeito de Florianópolis, Topázio Neto (PSD), de instalar um posto na rodoviária da capital catarinense para monitorar, filtrar e impedir a entrada de moradores de outras cidades reacendeu um debate que ultrapassa os limites da administração municipal: o da exclusão social e territorial.
Após o anúncio, a vereadora Carla Ayres (PT) acionou o Ministério Público e a Defensoria Pública do Estado de Santa Catarina para apurar a legalidade da medida e garantir o respeito aos direitos humanos e constitucionais. Segundo ela, “essa prática fere o direito constitucional de ir e vir”.
A decisão do prefeito, embora administrativa, revela uma falha mais profunda: a incapacidade de compreender os processos sociais e econômicos que levam milhares de pessoas a deixar suas cidades em busca de sobrevivência.
O problema não está em conter a entrada de migrantes, mas em entender por que essas pessoas são forçadas a partir.
Gestores públicos, em todas as esferas, precisam de auxílio técnico, humano e político. Não é possível agir apenas na ponta final das políticas públicas, tentando conter fluxos migratórios ou mascarar as causas da desigualdade.
O país precisa de uma reforma estrutural urgente, capaz de evitar a repetição dos erros cometidos nas décadas de 1960, 1970 e 1980, quando o êxodo rural em massa transformou cidades como Joinville, Curitiba, Porto Alegre e São Paulo em polos de favelização e colapso urbano.
Naquele período, milhões de trabalhadores foram substituídos por máquinas agrícolas. Cada trator, colheitadeira ou equipamento de plantio representava centenas de empregos extintos. Faltaram políticas de transição, de requalificação e de integração econômica – e o resultado foi o aumento da miséria e da exclusão.
Hoje, o cenário se repete sob novas formas.
A automação das indústrias, o avanço da mecanização e a concentração de capital nas mãos de poucos, estão eliminando postos de trabalho em ritmo acelerado.
O que antes dependia de dezenas de trabalhadores agora é feito por poucos operadores de sistemas automatizados, e isso vem afetando todos os setores – do campo à cidade, das fábricas ao comércio.
Surge, então, uma pergunta inevitável: As empresas substituíram o trabalhador, mas mantiveram o consumidor.
E quando o desemprego estrutural reduzir o poder de compra da sociedade, quem consumirá o que for produzido?
Tudo o que se fabrica – dos alimentos às tecnologias mais avançadas – tem como destino final o consumo humano.
Caminhamos para uma era em que supermercados, postos de gasolina e linhas de produção funcionarão praticamente sem presença humana.
E então, onde estará o trabalhador excluído dessa nova equação?
Sem políticas públicas de inclusão e redistribuição, o resultado será uma nova onda migratória, movida pela exclusão econômica e pela busca desesperada por oportunidades – como tem ocorrido constantemente com africanos que demandam à Europa objetivando uma vida melhor – muitas vezes em barcos precários e superlotados de gente.
O desafio é promover um novo modelo de integração social, em que os trabalhadores possam participar – de forma justa – dos resultados e benefícios gerados pela modernização produtiva.
Mais do que garantir empregos, é preciso restaurar a dignidade e o pertencimento humano, fortalecendo o valor do trabalho como instrumento de vida e não apenas de produção.
Nesse sentido, é essencial criar um Programa de Reocupação Territorial Sustentável, que incentive a interiorização populacional e o desenvolvimento de polos tecnológicos e agrícolas sustentáveis, reduzindo a pressão sobre as grandes cidades.
A proposta inclui a implantação de “Distritos Criativos e Agrointeligentes”, com infraestrutura, conectividade e apoio à agricultura familiar mecanizada, promovendo trabalho, renda e equilíbrio social.
É urgente construir um novo pacto social e produtivo, onde o progresso não exclua o ser humano, mas o reintegre em novas formas de participação, solidariedade e partilha de resultados.
O objetivo é equilibrar eficiência econômica com justiça social, preservando a dignidade do trabalhador e preparando o país para uma sociedade mais humana e sustentável.
O futuro exigirá líderes com visão de longo prazo, capazes de compreender que a humanidade atravessa uma profunda transformação econômica e cultural. O trabalho do amanhã será cada vez mais ligado à criatividade, à cultura, à comunicação e ao conhecimento – áreas em que o espírito humano continua insubstituível.
Que o debate iniciado em Florianópolis sirva para despertar o país para uma questão maior: a reconstrução de um modelo civilizatório que una progresso e humanidade, eficiência e compaixão, desenvolvimento e justiça social.

JOSÉ AVELINO SANTANA:
Jornalista e pós-graduado em Direito Constitucional
Fundador do portal Folha do Estado


















