Supersalários, Estado capturado e a barbárie da omissão

ARTIGO | Folha do Estado / FolhaSC
“Entre privilégios milionários e omissão estatal, o Brasil normaliza supersalários enquanto falha em proteger os mais vulneráveis”
Santa Catarina – Joinville 06 de janeiro de 2026 | Em 2026, enquanto uma elite estatal acumula salários, auxílios e privilégios, o Brasil convive com desigualdade extrema, desaparecimento de crianças sem investigação efetiva e um Estado que serve aos fortes e abandona os vulneráveis.
O debate sobre os supersalários no Brasil deixou de ser uma mera discussão fiscal. Tornou-se um marcador civilizatório. Em um país onde milhões sobrevivem com renda próxima ao salário mínimo, enfrentam jornadas extenuantes, escala 6×1, transporte precário, ausência de moradia digna e insegurança cotidiana, a existência de remunerações públicas que ultrapassam R$ 100 mil, R$ 200 mil e chegam a R$ 350 mil em um único mês não é exceção administrativa  é afronta constitucional e moral.
A gravidade do tema levou o Senado Federal a aprovar, em 19 de março de 2024, o Projeto de Lei nº 2.721/2021, destinado a regulamentar o teto remuneratório previsto no art. 37, XI, da Constituição Federal, com o objetivo declarado de restringir o uso de verbas indenizatórias como mecanismo de burla ao teto constitucional.
Entretanto, a efetividade dessa iniciativa legislativa foi rapidamente esvaziada. Em 5 de fevereiro de 2026, decisão liminar proferida no âmbito do Supremo Tribunal Federal suspendeu os efeitos práticos das restrições aos chamados “penduricalhos”, mantendo, na prática, o sistema de remunerações infladas por auxílios, vantagens acessórias e indenizações classificadas fora do teto.
Quem sustenta o Estado é o trabalhador. Ele paga impostos no alimento, no gás, no transporte, na energia e em cada serviço básico. Em troca, recebe serviços públicos precários. O mesmo Estado que cobra com rigor protege privilégios com eficiência.

A máquina política inchada

O país mantém cerca de 58 mil vereadores, 1.059 deputados estaduais, 513 deputados federais, 81 senadores e mais de 5.500 vice-prefeitos, além de uma extensa rede de secretários, subsecretários, diretores e cargos comissionados. Grande parte dessas estruturas não decorre de necessidade administrativa, mas da lógica do espólio eleitoral: acomodar aliados, pagar acordos e perpetuar poder.
Trata-se de um Estado hipertrofiado no topo e ineficiente na base, incapaz de entregar serviços públicos compatíveis com a carga tributária imposta à população.

O sistema de Justiça e os privilégios institucionalizados

A distorção se aprofunda no sistema de Justiça. O Brasil possui cerca de 18 mil magistrados e mais de 14 mil membros do Ministério Público, entre promotores e procuradores estaduais e federais. São carreiras essenciais ao Estado Democrático de Direito, mas que se tornaram ilhas de privilégios, blindadas por auxílios e verbas acessórias.
Relatórios oficiais do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), do Tribunal de Contas da União (TCU) e levantamentos da imprensa nacional demonstram que a burla ao teto constitucional não é episódica, mas estrutural. Contracheques superiores a R$ 350 mil permanecem recorrentes, especialmente em meses de pagamentos retroativos, férias indenizadas, licenças-prêmio acumuladas e gratificações classificadas como “indenizatórias”.
Auxílio-moradia, auxílio alimentação, auxílio saúde, pagamento de aluguel, plano de saúde privado, carros oficiais e segurança pessoal compõem um pacote de benefícios que dribla o teto constitucional e transforma a exceção em regra. O teto existe no texto da Constituição. Na prática, foi neutralizado.
Mesmo após a aprovação do projeto no Senado e a posterior suspensão de seus efeitos por decisão liminar, o modelo de privilégios segue operando sem freios efetivos, evidenciando o abismo entre o comando constitucional e a realidade administrativa.

Desigualdade patrocinada pelo Estado

Enquanto isso, o cidadão comum enfrenta:
•transporte coletivo sucateado;
•filas intermináveis no SUS;
•escolas públicas precarizadas;
•insegurança nas periferias;
•salários que não acompanham o custo de vida.
A segurança pública revela, de forma cristalina, a quem o Estado realmente serve: é eficiente na proteção de patrimônios e interesses da elite, mas falha sistematicamente na proteção da população vulnerável. O Estado que cobra impostos com rigor protege privilégios com ainda mais eficiência.

Fardas, altos salários e prioridades distorcidas

Em 2025, outro dado alarmante se impõe: o Brasil mantém uma elite abastada no topo da hierarquia estatal. São centenas de generais, além de coronéis das polícias estaduais, muitos com remunerações elevadas e benefícios indiretos que os distanciam da realidade social da população que deveriam proteger.
Não se questiona a existência dessas funções, mas a naturalização do privilégio em um país profundamente desigual, onde o orçamento público parece inesgotável para alguns e inexistente para outros.

O dado que paralisa a consciência

Nenhum número, uma paralisia mental coletiva, porém, revela de forma tão contundente a falência moral do Estado quanto este: em 2025, cerca de 23 mil crianças desapareceram no Brasil, sem investigação efetiva, sem corpos, sem identificação da causa, sem respostas institucionais claras e sem uma política pública nacional robusta de busca. Em sua maioria, são filhos de famílias pobres, lançadas a uma dor permanente e silenciosa e estes milhares de milhares de servidores privilegiados com supersalários para que fins?.
A omissão estatal diante desses desaparecimentos produz um terror social difuso. Quando o Estado não investiga, normaliza. Quando não responde, legitima. A ausência de respostas transforma tragédias individuais em uma indústria do medo, que corrói a confiança pública e destrói lares inteiros.  “Quem fora contratado por cargo de comissão, concursados, são servidores, “”quem não serve para servir não servem para integrar as fileiras dos cargos públicos de honras””, são “plantas mortas” versos sanguessugas malignas ao desserviço como as amebas que drenam os hospedeiros” José Santana

Há recursos para privilégios. Falta prioridade para a vida

Não é erro. É escolha.
Nada disso é acaso. Trata-se de uma escolha política reiterada. Escolhe-se proteger corporações, inflar folhas de pagamento e manter castas funcionais. Escolhe-se, por consequência, não investigar, não prevenir e não cuidar.
O Brasil não é um país pobre. É um país capturado — capturado por uma estrutura que concentra renda, poder e garantias no topo, enquanto empurra a conta e a dor para a base.
Defender o fim dos supersalários é defender o dinheiro público. Exigir respostas para o desaparecimento de crianças é defender a vida. Sem isso, não há República. Há apenas um Estado grande para poucos e ausente para muitos.
Sintetizando a realidade, de um pais rico e que seu orçamento está refém de atos administrativos que sequestram os recursos da União, enquanto;
O Brasil vive uma escolha deliberada de omissão. Enquanto o trabalhador, submetido à escala 6×1, enfrenta transporte precário, falta de saneamento e moradia indignas, é ele quem sustenta o Estado com impostos sobre o básico. Em contrapartida, uma horda de servidores privilegiados preserva supersalários e penduricalhos. O mesmo Estado que protege castas prevarica quando deveria proteger a vida. O desaparecimento de 23 mil crianças em um único ano é o extrato mais cruel dessa falência: não é acaso, é negligência institucional que viola direitos humanos. Há recursos para privilégios; falta compromisso com o povo.
Silenciar é conivência. Denunciar é dever.
Referências
•Constituição da República Federativa do Brasil, art. 37, XI
•Projeto de Lei nº 2.721/2021 – Senado Federal (aprovado em 19/03/2024)
•Supremo Tribunal Federal – decisão liminar de 05/02/2026
•Conselho Nacional de Justiça (CNJ) – Relatórios de remuneração
•Tribunal de Contas da União (TCU) – Auditorias sobre gastos com pessoal
•Registros oficiais de desaparecimento de pessoas – 2025
•Estudos do IPEA sobre desigualdade e gasto público
José Santana
Jornalista
Pós-graduado em Direito Constitucional
Portal Folha do Estado / FolhaSC
Sobre o Autor:

José Santana é jornalista (MTB 3982/SC), graduado em Gestão Pública Administrativa – pós-graduando em jornalismo investigativo e pós-graduado em Direito Constitucional, com atuação nas áreas de jornalismo político, jurídico e institucional. Natural de Ivaiporã (PR), serviu ao Exército Brasileiro em 1988 e desenvolveu trajetória voltada à comunicação, cidadania e controle social do poder público.

Entre 1990 e 1992, residiu em Joinville (SC) e, em 1993, retornou a Ivaiporã, onde fundou a UMES – União Municipal dos Estudantes, além de criar a primeira escola de informática do município (CIS), Projeto de inclusão de alunos da rede pública na informatização digital, com oferta de cursos de MS-DOS, Windows, Excel, digitação e formação técnica em CorelDRAW, iniciativa que posteriormente resultou na implantação de diversas unidades no estado do Paraná, contribuindo de forma concreta para a inclusão digital em regiões do interior.

Fundou, em 1996, o jornal Informativo do Vale do Ivaí e, em 2001, o jornal Folha Evangélica, sediado em Itapema (SC), do qual foi editor-chefe até 2013. Em 2014, consolidou juridicamente o Portal Folha do Estado / FolhaSC, hoje referência nacional em jornalismo independente, citado por instituições públicas, governos estaduais e assembleias legislativas.

É fundador da entidade Olho Vivo (2004), voltada à promoção da cidadania, participação social e consciência crítica, da qual é presidente de honra. Também possui atuação na vida pública, tendo sido candidato a vereador em Ivaiporã (1993) e, em Itapema (SC), a deputado estadual (2010) e vereador (2012 e 2020).

Assina seus trabalhos no Portal Folha do Estado / FolhaSC, com foco em Constituição, legalidade, transparência pública e interesse coletivo.
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Redação
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