Entre confraternizações e promessas de recomeço, fim do ano mostra a necessidade de cuidar dos vínculos e repensar as relações familiares para além das festas
O fim do ano tem um jeito curioso de escancarar verdades. Enquanto o calendário promete recomeços, muitas famílias se veem diante de velhos conflitos, silêncios difíceis e encontros atravessados por memórias que doem. Para alguns, as festas simbolizam união e aconchego. Para outros, solidão, tensão e a sensação de não pertencer.
E tudo isso é sobre a gestão familiar
Fala-se muito sobre metas, sonhos e planos de carreira para o ano que começa. Mas talvez exista um planejamento ainda mais essencial a ser feito: o das relações. O final do ano revela o quanto os vínculos estão nutridos ou desgastados. E o início de um novo ciclo pode ser um convite gentil para cuidar desse lugar.
Muitas famílias viajam no final do ano em busca de descanso e renovação. Mas existe uma verdade simples: onde quer que você vá, você leva a si mesmo. E leva também as relações que construiu. Não há paisagem capaz de sustentar o que está emocionalmente ausente. Para além do cenário bonito e das fotos compartilhadas, vale a pergunta sincera: a família está realmente ali, inteira?
Que tal estender os abraços de “feliz ano novo” para o ano inteiro? A ciência mostra que o abraço libera oxitocina, hormônio ligado à segurança emocional e à redução do estresse. Abraços não resolvem tudo, mas regulam o corpo e criam condições para que as relações respirem.
Nas festas, os presentes ocupam o centro da cena. Receber é bom, mas a presença é o que sustenta. Estar disponível no cotidiano, ouvir sem pressa, dividir silêncios, sustentar conversas difíceis.
É essa presença constante que mantém uma gestão familiar saudável ao longo do tempo
Recomeçar também é escolher o que permanece e o que precisa ser deixado de lado. Manter tradições e valores que edificam, e, com coragem, abrir espaço para o novo e soltar o que já não funciona. Cada vez mais, novas gerações entendem a família para além do sangue: como laços construídos por cuidado, respeito e afeto.
Talvez a pergunta mais importante deste fim de ano não seja sobre a próxima viagem ou o presente ideal, mas sobre a lista que estamos priorizando. Quando incluímos a gestão das relações familiares nos nossos planos, algo muda de lugar.
“Passam a caber juntos os presentes e a presença, as viagens e os afetos. Porque quando as relações estão cuidadas, quase tudo se torna mais leve e muito mais gostoso de viver”.
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Texto: Jaqueline Vilela (Psicanalista)




























