Uma copia do programa brasileiro de combate à fome, adere a escola de Lula? O paradoxo do assistencialismo americano
O anúncio do presidente norte-americano Donald Trump, de um pagamento direto de US$ 2 mil dólares por pessoa a cidadãos americanos, surpreendeu economistas e reacendeu um velho debate: até onde vai a coerência ideológica quando o populismo eleitoral entra em cena?
Chamado de “dividendo tarifário”, o projeto seria financiado com recursos arrecadados por meio de tarifas sobre importações, especialmente da China. Na prática, é uma transferência direta de renda, muito semelhante, em essência, ao Bolsa Família criado por Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil em 2003.
A ironia é inevitável. O mesmo Trump que passou anos denunciando políticas sociais como “socialismo disfarçado” agora recorre ao mesmo instrumento para reconquistar o eleitorado e demonstrar “empatia popular”.
A IDEOLOGIA QUANDO ENCONTRA O PRAGMATISMO
A história política mostra que, em tempos de crise, as ideologias se curvam à necessidade. Roosevelt fez isso com o New Deal, Lula com o Bolsa Família e, agora, Trump parece trilhar o mesmo caminho, em versão americana e com discurso nacionalista.
O paradoxo é que o discurso liberal, que prega o enxugamento do Estado e a autossuficiência individual, sucumbe ao pragmatismo quando a pressão popular se torna insustentável. Nenhum líder, “seja de esquerda ou de direita”, sobrevive politicamente ignorando o poder da renda direta sobre o humor das massas.
O “dividendo tarifário”, apesar de sua roupagem patriótica, carrega os mesmos elementos de um programa assistencialista clássico: redistribuição temporária, apelo emocional e impacto eleitoral.
O EFEITO ECONÔMICO E SIMBÓLICO
Economistas alertam que a proposta pode gerar pressões inflacionárias e tensões comerciais com parceiros estratégicos. Mas, politicamente, é uma jogada de alto impacto. Em um país polarizado, a promessa de um cheque de US$ 2 mil tem poder de unificação simbólica, e isso, em ano eleitoral, vale mais do que qualquer doutrina econômica.
Do ponto de vista simbólico, a cena é emblemática: o ícone do capitalismo norte-americano aplicando uma medida inspirada em políticas de redistribuição de renda que ele próprio criticava. É o reconhecimento, ainda que implícito, de que as políticas sociais não têm dono ideológico, apenas resultados práticos.
A LIÇÃO POLÍTICA GLOBAL
O episódio expõe o esgotamento das fronteiras rígidas entre direita e esquerda. Em uma era de insegurança econômica, a sobrevivência política se tornou a ideologia dominante. O líder que antes demonizava o Estado agora o utiliza como ferramenta de popularidade.
O “Bolsa Família americano” – mesmo que não receba oficialmente esse nome – revela algo maior: o fim da inocência ideológica. A política moderna já não se guia por dogmas, mas por resultados imediatos e pela necessidade de se manter no poder.
E se, como ironizam as redes, Trump aprendeu “na escola de Lula”, talvez seja porque, no final, o eleitorado é o mesmo em qualquer parte do mundo: busca segurança, estabilidade e o sentimento de que não foi esquecido.
FONTES DE PESQUISA
- THE GUARDIAN. Trump weighs giving Americans $2,000 from tariff revenues in bid for support. Londres, 9 nov. 2025. Disponível em: https://www.theguardian.com/us-news/2025/nov/09/trump-tariffs-refund.
- EURONEWS. Trump proposes $2,000 payments to most Americans to highlight benefits of tariffs. Bruxelas, 10 nov. 2025.
- BUSINESS INSIDER. Trump’s $2,000 tariff dividend plan sparks inflation debate. Nova York, 10 nov. 2025.
- CBS AUSTIN. President Trump announces a $2,000 tariff dividend check for Americans. Austin, 10 nov. 2025.
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