Artigo: Os paladinos da impunidade e a farsa da moralidade

Aqueles que foram sem nunca terem sido mas querem voltar

O Brasil vive um paradoxo: aqueles que deveriam ser lembrados pela vergonha de seus próprios escândalos agora se apresentam como os arautos da moralidade pública. Paulinho da Força, Aécio Neves e Michel Temer – nomes gravados no imaginário popular pelos dossiês da corrupção, do tráfico e das organizações criminosas – ressurgem no cenário político como os defensores de uma proposta de lei que mexe no coração da justiça penal: a PL da dosimetria.

O que significa, afinal, essa iniciativa? Nada mais do que um ensaio legislativo para enfraquecer o combate ao crime organizado e blindar poderosos. A retórica é a de que o projeto traria “equilíbrio” às penas. A prática, porém, revela-se como uma manobra sorrateira: afrouxar as amarras do sistema punitivo para que a elite da criminalidade continue intocável.

Não é de hoje que o Parlamento brasileiro se transforma em palco de interesses privados. Mas a ousadia é tamanha que, em pleno século XXI, figuras carimbadas pela lama da história política se colocam como “pendões da moralidade”. Paulinho, réu por organização criminosa; Aécio, que carrega o fantasma do helicóptero abarrotado de cocaína e se envolveu no escândalo Joesley Batista, recebendo propinas e tramando a obstrução da Justiça; Temer, que já conheceu a cela e a humilhação pública. Juntos, ousam vestir a toga de legisladores justos, como se fossem capazes de oferecer ao povo a segurança que eles próprios nunca respeitaram.

É preciso dizer sem meias-palavras: o PL da dosimetria não nasce da justiça, mas da conveniência. É a fotografia de um país que insiste em permitir que raposas legislem sobre o galinheiro. Que sentido há em conceder àqueles que simbolizam a própria falência ética do poder a caneta para moldar a punição de criminosos? É a institucionalização da impunidade, disfarçada de tecnicismo jurídico.

O Brasil não pode se curvar a esse teatro. A sociedade não pode assistir calada ao avanço de um projeto que, em sua essência, legitima o desmonte do sistema de responsabilização penal. O povo deve enxergar além do discurso ensaiado, além das promessas vazias. Esta não é uma luta por justiça: é uma batalha pelo direito de permanecerem impunes.

A chama da impunidade só se mantém acesa porque muitos preferem o conforto da amnésia à dureza da memória. Cabe à sociedade, ao jornalismo independente e às instituições sérias desossar essa farsa, expor seus protagonistas e lembrar que nenhum projeto legislativo pode sobrepor-se ao princípio fundamental da democracia: a lei deve valer para todos.

Enquanto os paladinos da hipocrisia tentam reescrever a história, resta ao Brasil escrever sua própria resistência. O país não pode mais tolerar o espetáculo dos corruptos travestidos de legisladores. O povo merece justiça, não um simulacro de moralidade produzido pelas mesmas mãos que sustentaram quadrilhas, enriqueceram à custa da miséria nacional e mancharam a história com escândalos como o caso Joesley. A memória do povo deve ser reativada sobre esses casos que agora ressurgem no horizonte da política nacional.

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José Santana: jornalista, bacharel em Gestão Pública e pós-graduado em Direito Constitucional

 

Redação
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