Lembranças que chegam sem hora marcada
Isso aconteceu tem uns vinte anos, mas lembro como se fosse hoje. Eu estava dobrando algumas roupas, quando me veio um pensamento sobre mim mesma que na hora me dei conta. “Não sou eu quem pensa isso sobre mim. Essa voz falando na minha cabeça não é minha”. Calma, não é que eu estava ouvindo coisas, não. Mas ali naquele instante, eu entendi que certas crenças que eu tinha sobre mim haviam sido herdadas da minha própria criação. Mães, tias, avós… Mas não exatamente eu. Foi quase como sair da caverna de Platão. “Uau, essa voz aqui não é minha!”.
Lembrei dessa cena esses dias, enquanto conversava com uma grande amiga. Ela me contava sobre um sonho pulsante, que estava prestes a se concretizar, quando começou a falar sobre os receios daquela escolha. Ali, nessa hora, já não era mais a voz dela. Era de toda uma cultura – e até de pessoas específicas com quem ela convivia – que comungavam de determinadas crenças que, de tanto escutar e sentir, minha amiga as tinha dentro da sua própria mente, contando historinhas que não condizem com o que ela deseja.
Com certeza você também já passou por isso. “Ah, mas vai largar aquele emprego, que te dá estabilidade, para se arriscar na profissão que você deseja?”, “Quê, como assim você não se importa em ter um carro top de linha? É sinal de fracasso!”, “Vai usar mesmo essa roupa? Não combina com a sua idade”… E assim por diante.
Nós crescemos e vivemos no mundo escutando uma série de ideias e visões que alimentam o nosso inconsciente e começa a fazer morada em nós. De tanto estarmos expostos a elas, tais falas começam a se misturar com a nossa própria voz interior e passam a agir no automático. Elas parecem ficar à espreita, prontas para saltar à mente bem naquele momento que um desejo profundo vem à luz. “Quem é você pra desejar isso?”, a voz parece dizer. E aí vamos lá colocar para debaixo do tapete as nossas vontades, nossos sonhos, nossa autenticidade.
Quando a minha amiga, que estava toda animada em me contar sobre os passos futuros do seu sonho, foi invadida pela voz intrusa, eu a interrompi. “Espera. Essa voz aí não é sua. Quem é que pensa assim e fala assim?”. E o mais bonito: ela rapidamente nomeou uma pessoa específica do seu convívio. Pronto. Aquela voz não era dela.
Lembrei, então, da parábola dos lobos. Temos dois deles dentro de nós. Um representa sentimentos ruins, e o outro, bons. Eles estão em constante batalha. Afinal, qual deles é mais forte? Qual deles ganha a luta? A resposta depende da gente. Vence o lobo que a gente alimenta.
Penso nisso quando sei que preciso dar mais ouvido à minha voz. Ao meu real desejo. Alimento os meus bons pensamentos, em vez de escolher aqueles que representam o medo ou preconceito que as outras pessoas carregam. Saber que aquilo não é nosso abre a oportunidade de fortalecer o que a gente realmente acredita.
E moldar os nossos pensamentos é o primeiro passo para concretizar o que a gente deseja. É o que a neurociência já comprovou: a plasticidade do nosso cérebro nos permite criar novas rotas, novas maneiras de pensar, e isso se torna o filtro com o qual enxergamos o mundo. A partir desses pensamentos, o cérebro recebe comandos e trabalha para concretizar a crença. Por isso, acreditar na sua voz interior, nos seus sonhos e no lobo bom não tem nada de misticismo. É pura ciência.
Brené Brown tem um livro famoso, que já falamos aqui na vida simples algumas vezes. A Coragem de Ser imperfeito. No best seller, ela diz o quanto vivemos para atender expectativas alheias e como isso nos distancia da nossa própria verdade. O medo do julgamento, do que vão pensar, paralisa as nossas escolhas. E, inevitavelmente, sufoca o nosso potencial e a nossa capacidade de realizar.
Alimentar o lobo bom é tarefa diária, nos pequenos gestos, e pra vida toda. Mas é assim que a gente constrói uma mentalidade que se escuta, que sonha, que transforma.
Uma semana de auto-escuta para você!
Débora Zanelato (@deborazanelato)
Diretora de Conteúdo da Vida Simples



















