14/01/2026: Enquanto turistas cancelam reservas após vídeos e denúncias nas redes, laudos oficiais do IMA confirmam praias próprias para banho e o vereador Yagan Dadam alerta para a diferença técnica entre rede pluvial, esgoto sanitário e ligações clandestinas.
Um proprietário de imóveis de veraneio em Meia Praia confirmou à reportagem da Folha do Estado que um grupo de turistas do Mato Grosso desistiu de viajar para Itapema e solicitou reembolso integral dos valores já pagos em aluguéis de temporada.
Segundo o proprietário, o montante devolvido chegou a R$ 75 mil, referente a reservas programadas para o período de alta temporada.
A decisão dos turistas ocorreu após a ampla repercussão negativa envolvendo problemas de balneabilidade, denúncias de esgoto irregular e riscos à saúde pública, fatores que afetaram diretamente a percepção de segurança sanitária do destino.
De acordo com o relato recebido pela reportagem, os turistas manifestaram preocupação ao verem servidores públicos coletando amostras na praia e vídeos divulgados por vereadores mostrando redes pluviais despejando esgoto no mar.
“Eles disseram que não iriam levar crianças para um local com suspeita de água contaminada. Preferiram cancelar tudo”, relatou o proprietário.
Campanha política e crise de imagem
Nos bastidores do setor turístico e imobiliário, cresce a avaliação de que a crise de imagem foi agravada por uma campanha pública conduzida por agentes políticos e veículos de comunicação sem compromisso com a verificação técnica dos fatos.
Segundo fontes ouvidas pela reportagem, os vereadores Ramos e Márcio lideraram, nos últimos dias, uma campanha massiva de exposição negativa das praias de Itapema, com divulgação de vídeos, falas e conteúdos que, segundo o setor produtivo, desconsideraram dados técnicos oficiais sobre balneabilidade e controle sanitário, ampliando o pânico e a desinformação.
Empresários do setor apontam que a narrativa difundida nas redes sociais e em parte da imprensa provocou cancelamentos, retração de reservas e perda imediata de faturamento, afetando proprietários, imobiliárias, corretores, hotéis, restaurantes, trabalhadores do turismo e o comércio local.
Manifestação técnica do vereador Yagan Dadam
Já o vereador Yagan Dadam, em meio aos inúmeros ataques à imagem da balneabilidade das praias de Itapema, adotou postura mais cautelosa e tecnicamente fundamentada. Em manifestações públicas, inclusive em grupos de WhatsApp com centenas de membros, o parlamentar destacou que “há informações oficiais e documentos que apontam que “nos bairros que já possuem rede coletora de esgoto disponível e apta para ligação, há mais de mil imóveis que não possuem vistoria regular a rede coletora de esgoto pela CONASA,” o que evidencia a complexidade estrutural do problema.

Yagan também ressaltou que a rede de drenagem pluvial possui função, traçado e temporalidade distintos da rede coletora de esgoto sanitário, “sendo que a pluvial é de competência do Município e a rede coletora de esgoto é da Conasa”. Assim, “deveria ser tecnicamente incorreto atribuir automaticamente a presença de água em galerias pluviais à contaminação fecal do sistema de balneabilidade, salvo as ligações clandestinas, que deve ser o foco do combate. Contudo, é necessário realizar análise laboratorial constante das aguas pluviais com rastreamento das tubulações, para prevenir contaminações e prejuízos a saúde pública e a economia local”.
Segundo o vereador, é necessário separar as condutas e responsabilidades, evitando generalizações que imputem a um único agente ou a um único fator a totalidade dos problemas, sob pena de distorção técnica, desinformação pública e dano à imagem institucional do município.
Laudos do IMA contradizem narrativa de colapso

Paralelamente à crise de imagem, dados oficiais divulgados nesta segunda-feira, dia 13, pelo Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA) apontam que as praias de Itapema estão classificadas como próprias para banho.
As análises laboratoriais realizadas pelo órgão ambiental indicam que os níveis de coliformes e demais parâmetros de qualidade da água estão dentro dos limites estabelecidos pelas normas ambientais e sanitárias, o que significa que, do ponto de vista técnico, o banho de mar está liberado e considerado seguro.
Entenda o Laudo: Itapema mantém balneabilidade majoritariamente adequada, mas apresenta focos críticos de contaminação pontual
Florianópolis: Os dados oficiais do Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA), coletados nos dias 5 e 12 de janeiro de 2026, indicam que a Praia de Itapema permanece, de forma geral, dentro dos padrões de balneabilidade exigidos pela Resolução CONAMA nº 274/2000, especialmente nos pontos da Rua 113, Rua 149, Rua 319 e na foz sul do Rio Bela Cruz (Ponto 07), que registraram índices de Escherichia coli compatíveis com condição PRÓPRIA na coleta mais recente.
Entretanto, o levantamento também revela a existência de focos críticos de poluição fecal concentrados em áreas específicas, notadamente nos pontos da Rua 205 e da Rua 227, onde foram registrados valores extremamente elevados — superiores a 9.800 e acima de 24.196 NMP/100 ml — caracterizando condição IMPRÓPRIA e indicando despejo irregular de esgoto ou falhas graves de drenagem sanitária.
O conjunto dos dados demonstra que Itapema não enfrenta um colapso generalizado da balneabilidade, mas sim um problema localizado de ligações clandestinas, drenagens contaminadas e falhas estruturais, que exigem fiscalização rigorosa e intervenção técnica imediata para impedir a degradação ambiental e proteger a saúde pública. Fonte: IMA/SC
Queda nas viroses reforça cenário sanitário favorável
Outro indicador que reforça esse contraste é o comportamento dos casos de virose e doenças gastrointestinais no município.
Em anos anteriores, especialmente durante a alta temporada, Itapema registrava picos de atendimentos por náuseas, vômitos e diarreias. Neste ano, porém, conforme dados das unidades de saúde, os registros caíram para níveis próximos de zero, um patamar considerado estatisticamente residual.
Esse dado é relevante porque as viroses de verão estão diretamente associadas à qualidade da água, saneamento básico, higiene urbana e segurança sanitária. A redução drástica dos casos indica que, no momento, as condições sanitárias do município estão melhores, refletindo níveis mais elevados de controle ambiental e proteção à saúde pública.
Economia refém da narrativa
Especialistas em turismo e gestão pública ouvidos pela reportagem alertam que, em cidades turísticas, a confiança do visitante é tão importante quanto a infraestrutura.
Quando a imagem de um destino passa a ser associada a riscos ambientais e sanitários ainda que os indicadores oficiais apontem o contrário — o impacto sobre a demanda é quase imediato. A recuperação da credibilidade, por sua vez, pode levar anos, mesmo após a normalização técnica da qualidade da água e dos indicadores de saúde.
O caso dos R$ 75 mil devolvidos em reservas ilustra de forma concreta como a guerra de narrativas políticas e midiáticas produziu efeitos econômicos reais e imediatos sobre Itapema e toda a sua cadeia produtiva.
NR: Todos os levantamentos e checagens realizados pelo jornalismo da Folha do Estado baseiam-se em fontes oficiais, dados públicos e laudos técnicos, com a oitiva de profissionais habilitados e independentes, assegurando rigor, transparência e fundamentação técnica a todas as informações apresentadas nesta contextualização jornalística exclusiva.
Por José Santana l jornalista MTB3982/SC – formado em Gestão Pública Administrativa e pós-graduando em Jornalismo Investigativo, além de pós-graduado em Direito Constitucional. Fundador e editor-chefe do portal Folha do Estado, atua há mais de três décadas no jornalismo investigativo, político e institucional, com foco em transparência pública, legalidade e defesa dos direitos fundamentais.
Leia mais: Prefeitura de Itapema intensifica combate a ligações clandestinas de esgoto e anuncia R$ 200 milhões em investimentos em saneamento – https://folhaestado.com/prefeitura-de-itapema-intensifica-combate-a-ligacoes-clandestinas-de-esgoto-e-anuncia-r-200-milhoes-em-investimentos-em-saneamento/ via @Folha do Estado SC




























