Aquilo que se faz por amor está sempre muito além do bem e do mal

O reino seguiu adiante, como tudo que continua mesmo quando algo essencial se perde. Sob o governo de Razão e Emoção, os dias se tornaram intensos, porém instáveis. Havia ordem, mas faltava calor. Havia entusiasmo, mas faltava permanência. As pessoas aprenderam a decidir com lógica e a sentir com profundidade, mas, pouco a pouco, perceberam que algo invisível se ausentara do convívio humano.
As famílias passaram a se formar com eficiência, mas se desfaziam com facilidade. Relações nasciam velozes e morriam cansadas. O reino prosperava em números, em estratégias, em impulsos criativos, mas empobrecia em vínculos duradouros. A Razão organizava o mundo. A Emoção o movimentava. Ainda assim, nenhum dos dois conseguia ensinar o povo a permanecer.
Foi então que surgiram os primeiros sinais da ausência. Um silêncio diferente nos lares. Um cansaço que não vinha do trabalho, mas da alma. As pessoas começaram a falar de um vazio que não sabiam nomear. Algumas diziam sentir saudade de algo que nunca haviam tocado. Outras chamavam de falta de sentido.
Enquanto isso, na Ilha da Ilusão, o Rei Amor observava. Não com distância, mas com dor serena. Ali, entre reflexos e miragens, ele compreendeu que sua retirada não fora punição, mas convite.
Foi nesse tempo que a alquimista Paixão encontrou a ilha. Não chegou como invasora, mas como peregrina. Trazia nos olhos o brilho dos que estudaram profundamente o corpo humano e entenderam seus limites.
O encontro entre Amor e Paixão foi gradual. Conversaram sobre os erros do reino, sobre os excessos cometidos em nome de sentimentos incompletos. Ali nasceu a compreensão que mudaria tudo: Amor e Paixão não são rivais, são complementares.
Decidiram retornar
Quando atravessaram novamente os portões do reino, não anunciaram grandiosidade. Caminharam pelas ruas, ouviram histórias, falaram ao povo sobre proporção. Sobre equilíbrio. Sobre a necessidade de escolher, todos os dias, cuidar e desejar.
Razão e Emoção não foram destronadas. Foram integradas. Tornaram-se conselheiras.
E assim iniciou-se uma nova era. Uma era em que amar se tornou disciplina sensível. Em que a paixão deixou de ser medo e passou a ser chama cuidadosa.
Dizem que o Rei Amor ainda caminha entre as pessoas. Invisível como sempre foi. Mas agora encontra corações mais atentos e relações que aprenderam que amar vale a pena quando é inteiro.
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Por Virgílio Galvão
Brasília – 2026




























