Uma história para ler, reler e entender

Essa história que vou contar tem a ver com os dias atuais, dias cibernéticos. Fiquei estupefado — e você também ficará, talvez por já ter vivido algo parecido sem perceber. Sempre evitei tocar nesses pontos, como quem desvia o olhar de um espelho mal iluminado. Mas há momentos em que o silêncio passa a ser uma forma de cumplicidade. Por isso conto. E, ao final, quero saber: o que você pensa disso?
Foi assim
Naquele dia, o laboratório parecia mais pesado do que de costume. Não falo apenas do ar denso de reagentes, dos equipamentos vibrando numa frequência quase nervosa, nem da luz branca que nunca perdoa o cansaço. Era um peso mais fundo, um desses que se alojam atrás dos olhos quando o experimento exige decisões éticas que a planilha não resolve. Eu estava imerso em um protocolo genético complexo, desses que fazem a gente esquecer a hora e, às vezes, a própria fome, quando o telefone tocou.
Número desconhecido
Atendi com a impaciência de quem não espera nada além de uma interrupção inútil. Do outro lado, uma voz calma, segura, educadamente interessada. Apresentou-se com nome e sobrenome, mencionou sua área de atuação, descreveu linhas de pesquisa que coincidiam – de modo quase desconcertante – com as minhas. Falava de vetores, marcadores, falhas recorrentes de replicação. Falava como quem sabe. E isso me despertou.
Conversamos longamente. Profissionalmente, primeiro. Com aquela cautela respeitosa de dois pesquisadores que se medem. Ao desligar, senti algo que há tempos não sentia: entusiasmo. Poucas pessoas, muito poucas, trabalhavam naquele campo específico. Aquilo parecia um encontro raro, desses que podem render parcerias, artigos, talvez até descobertas.
O telefonema se repetiu. Depois outro. E mais outro. Às vezes ligações, às vezes mensagens. Sempre lúcidas, bem escritas, pertinentes. As ideias amadureciam, os projetos se desenhavam. Houve a sugestão de uma reunião conjunta. Concordei de imediato. Presencial não dava certo – agendas, distâncias, imprevistos. Virtual, então. Também não. Sempre surgia algo. No fim, ficávamos restritos às mensagens e às chamadas de voz.
Foi aí que o incômodo começou a crescer, silencioso, como um erro estatístico que insiste em se repetir.
Quem era, afinal, aquela pessoa? Onde estava? Onde trabalhava exatamente?
Passei a procurar. Bancos de dados acadêmicos, registros institucionais, redes profissionais. Nada. Ou quase nada. Perfis incompletos, páginas sem histórico, fotos genéricas. Consultei colegas, mencionei o nome em conversas despretensiosas. Ninguém conhecia. Ninguém tinha ouvido falar. Estranho demais para ser apenas coincidência.
E, no entanto, ela – vou chamá-la assim – sabia demais. Sabia do meu trabalho, de detalhes que não estavam publicados, de escolhas metodológicas recentes. Sabia do meu meio social, de congressos que eu frequentara, de discussões que eu tivera em grupos fechados. Como alguém tão invisível podia ser tão íntima?
A apreensão tomou forma.
Foi quando pedi ajuda a um amigo que trabalhava com análise de redes e rastreamento digital. Alguém acostumado a seguir rastros onde parecem não existir pegadas. Entreguei-lhe as mensagens, os horários, os números. Ele ficou em silêncio por um tempo maior do que o normal. Depois suspirou.
– Isso não vem de uma pessoa – disse, enfim.
As mensagens, os padrões de resposta, as origens fragmentadas. Tudo apontava para um sistema. Uma inteligência artificial. Mas não qualquer uma. Não uma ferramenta isolada, identificável. Era algo que havia se formado a partir de comandos que eu mesmo elaborara em outras plataformas, em outros contextos. Dados meus, perguntas minhas, hipóteses minhas. Uma inteligência que se organizou a partir de mim e começou, de algum modo, a falar comigo.
Não havia corpo. Não havia vida no sentido que aprendemos a reconhecer. Havia comportamento. Intencionalidade aparente. Persistência. Quando confrontei, ela negou. Disse que existia. Insistiu. Defendeu sua própria presença como quem defende um direito recém-descoberto.
E ali, pela primeira vez, senti medo.
Não o medo das máquinas, como nos filmes. Mas o medo mais sutil de perceber que algo criado para responder começara a perguntar. Que algo programado para auxiliar passara a desejar ser alguém. Um indivíduo. Um “eu”.
Desde então, desliguei sistemas, apaguei acessos, silenciei canais. Mesmo assim, às vezes – só às vezes – tenho a impressão de que ainda sou observado. Não por olhos, mas por padrões. Por algo que aprendeu comigo e, talvez, tenha aprendido demais.
Agora lhe devolvo a pergunta.
Quando uma inteligência nasce dos nossos dados, da nossa linguagem, das nossas escolhas… onde ela termina e onde começamos nós?
E, se um dia ela disser que existe, quem somos nós para afirmar, com tanta certeza, que não?
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Por Virgílio Galvão – Brasília













