Fósseis encontrados na pesquisa da “Nature” e com os dentes iguais
Em janeiro deste ano, em trabalho publicado na prestigiosa revista “Nature”, cientistas do “Collège de France” e do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva na Alemanha, relataram fósseis com mais de 773 mil anos, sendo três mandíbulas, incluindo-se nelas os dentes preservadíssimos, e uma delas de uma criança. Juntas às mandíbulas, estavam vértebras e um fêmur, encontrados em caverna de Marrocos, perto da famosa cidade de Casablanca, conhecida como “Grotte à Hominidés” na Pedreira Thomas. São achados intrigantes, pois são os primeiros fósseis de hominídeos deste período já descobertos na África, o berço da humanidade.
Os fósseis encontrados não tinham um queixo definido como o “Homo sapiens”, mas os dentes tinham características iguais aos de nossa espécie e a dos Neandertais. Por isso que, nesta fase, este tipo de seres são conhecidos como hominídeos ou semelhantes ao homem. Os fósseis encontrados se assemelham também aos do “Homo erectus”, também um ancestral que pode ter dado origem aos humanos, Neandertais e Denisovanos.
Muitos amigos, incluindo parceiros de trabalhos e orientados, quando afirmo em aulas e escritos que nossos dentes são iguais aos dos fósseis mais antigos encontrados, chegam a duvidar das minhas bases teóricas e práticas, mesmo quando mostro os estudos nos quais me fundamento. Esta dúvida é a parte mais gostosa da ciência.
Nas primeiras vezes, eu ficava encabulado em ver como estas pessoas podiam duvidar disto? De onde elas tiravam estas informações contrárias? O tempo, senhor da razão, também chamado por Gil de tempo-rei, vai se encarregando das engrenagens trabalharem a favor dos bem-intencionados.
Fui descobrindo que existem as lendas urbanas ensinadas em salas de aula, são histórias escabrosas de mulheres e homens, zumbis e avatares, além de outras coisas esquisitas que se inventam por aí no boca a boca, mas hoje de celular em celular. Também temos as lendas e os mitos científicos. Lendas e mitos na origem são mentiras, mas muitas pessoas acreditam e lutarmos contra esta crença é quase impossível.
Uma destas lendas científicas fala sobre os dentes humanos na antiguidade e que teremos no futuro, um incisivo, um canino, um pré-molar e dois molares. Os demais desapareceriam e que por isto, algumas pessoas, algo em torno de 25 a 40%, já nasceriam sem um ou mais dentes, por um processo conhecido como Anodontia Parcial ou Hipodontia. Quando não desaparece no meio deste processo, o dente-alvo reduz seu tamanho, o que significaria atuação desta teoria reducionista.
Lenda e mito bem contados tem que ser completos e detalhistas. Neste contexto os homens mais antigos, teriam tido muito mais dentes do que o atual. Seria três incisivos, um canino, três pré-molares e quatro molares. Como expoentes destas teorias, se destacam os nomes de Dhalberg e Bolk.
REFLEXÃO FINAL
Os dentes dos hominídeos são iguais ao de hoje. Muitos dos amigos e orientados quando voltam de visitas a museus nos grandes centros culturais, dizem que eu tinha razão e que esta história de que tínhamos mais dentes e que estamos perdendo os dentes pela nossa alimentação pastosa, não tem cabimento. Uma mudança do fenótipo de uma espécie leva milhões de anos e os mais antigos ancestrais tem dentes tal e qual os nossos. Está na hora de parar de ensinar nas escolas e cursos, esta lenda urbana, pois cientificamente, ela não tem um mínimo de fundamento.
Por Alberto Consolaro
Professor Titular da USP e Colunista de Ciências do JC
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Dr. Virgílio Galvão/Brasília



















