Com impostos, despesas extras e orçamento apertado, organizar as finanças em janeiro é essencial para evitar dívidas e começar o ano com mais tranquilidade
Se planejar financeiramente em janeiro é o primeiro passo para ter um início de ano mais organizado e leve.
Como se planejar financeiramente em janeiro é uma dúvida que costuma surgir num mês carregado de ansiedade. IPTU, IPVA, reajustes, mensalidades, material escolar. As contas se acumulam logo nas primeiras semanas do ano e é preciso reorganizar o orçamento. Para muitos brasileiros, é o mês em que o dinheiro parece encolher enquanto as obrigações se multiplicam. Mas, para a educadora financeira Clariana Barcelos, esse desconforto raramente nasce no primeiro mês do ano.
– O principal erro é tratar dezembro como se fosse uma realidade paralela, uma exceção total da nossa vida cotidiana – afirma. É quando entram frases automáticas como “é Natal, preciso comprar presente”, “é fim de ano, preciso fazer uma boa viagem”, “preciso decorar a casa, caprichar na ceia”. Nesse processo, muitas pessoas antecipam renda futura, gastam em prazeres imediatos e misturam celebração com compensação emocional, como se janeiro simplesmente não fosse chegar.
– O problema não é gastar mais em dezembro. Isso naturalmente acontece por conta das férias, das festividades, da simbologia do encerramento de ciclo. O ponto crítico é gastar sem consciência do impacto que isso terá depois. Se for gastar mais, precisa ter orçamento. Precisa ter respaldo financeiro – conta a especialista.
MITOS SOBRE O ENDIVIDAMENTO
Ignorar janeiro é um erro comum e caro. Mesmo quem recebe o 13º salário precisa olhar o calendário com mais honestidade. “Em janeiro tem matrícula de escola, material escolar. Janeiro precisa entrar na conta de dezembro”, diz Clariana. Para ela, os dois meses não deveriam ser pensados separadamente, é um pacote.
Essa desconexão faz com que as pessoas ajam como se o fim do ano fosse o fim do mundo. E quando isso acontece, decisões tomadas no impulso acabam cobrando um preço alto logo na virada.
Entre os mitos mais perigosos do fim de ano está a ideia de que se endividar em dezembro é normal e inevitável. “Depois a gente dá um jeito”, dizem. Para ela, esse pensamento é uma armadilha. “Esse mito normaliza o desequilíbrio e tira nossa responsabilidade das decisões.”
Quando alguém acredita que só pode ser assim, passa a repetir os mesmos erros, ano após ano. “A pessoa se desequilibra em dezembro, entra janeiro já correndo atrás do prejuízo. Em fevereiro, está tentando recuperar dois meses. E vive um ano inteiro e às vezes uma vida inteira desse jeito”.
Outro mito igualmente nocivo é associar gasto a afeto, presença ou sucesso. “Gastar mais, presentear muito, não é sinônimo de amar mais”, afirma. O consumo por status cria um padrão emocional difícil de sustentar e afasta o dinheiro de seu propósito real: melhorar a qualidade de vida. “Às vezes, substituir esses gastos por momentos e experiências que nem sempre têm custo faz muito mais sentido”.
NOMEAR OS GASTOS É O PRIMEIRO PASSO
Entender onde o dinheiro vai exige diferenciar os tipos de gasto. Os gastos fixos são aqueles que acontecem independentemente do mês como moradia, contas básicas, transporte, alimentação. “Eles vão existir todo mês, não importa o contexto”, explica.
Os gastos eventuais dependem da época do ano: presentes e festas em dezembro, impostos em janeiro. Apesar de sazonais, eles não deveriam causar rombos. “Eles podem ser previsíveis”. Com organização e clareza, esses gastos deixam de ser sustos e passam a fazer parte do planejamento.
Já os gastos emocionais são mais difíceis de enxergar. “Eles são invisíveis”, afirma. Costumam surgir para aliviar cansaço, culpa, frustração ou comparação. Um presente para compensar a ausência, uma compra para não “ficar por baixo”, um gasto para provar que está tudo bem.
Para identificá-los, a educadora sugere uma pergunta simples: “Se ninguém estivesse vendo, eu faria essa compra do mesmo jeito?”. Quando a resposta é não ou quando o gasto só faz sentido porque é Natal, há um forte indício de que ele é emocional.
PARCELAR OU PAGAR À VISTA?
Parcelar não é o vilão das finanças. “O problema é parcelar para além do seu orçamento”, alerta Clariana. Da mesma forma, pagar à vista só é uma boa ideia se não comprometer reservas importantes, como a de emergência.
Se não há desconto, parcelar sem juros pode ser financeiramente vantajoso, especialmente para quem tem o dinheiro investido e controle do orçamento. Mas ela lembra: “Essa não é a realidade da maioria dos brasileiros. Muitas pessoas parcelam apenas para adiar um compromisso que já não conseguem assumir”.
O risco está em ignorar o impacto mensal dessas parcelas. Um imposto dividido em várias vezes pode parecer leve, mas, se a parcela não cabe no orçamento, ela se soma a outros déficits e estrangula as finanças aos poucos.
Por isso, toda receita extra como 13º, bônus, férias, deveria ser destinada às despesas extras. “Às vezes, isso significa adaptar planos. Uma viagem mais simples, menos gastos, escolhas mais conscientes. Não é sobre cortar tudo, mas sobre preservar a saúde financeira.”
CULPA FINANCEIRA NÃO PAGA BOLETOS
Janeiro costuma trazer culpa. E a culpa, segundo ela, empurra para dois extremos: a negação ou o pânico. “Quando você ignora o problema, ele não desaparece mas cresce em silêncio. Quando você entra em pânico, fica paralisado”.
O caminho saudável é outro. “Janeiro precisa ser um mês de análise, não de punição”, afirma. Olhar para os números com curiosidade, de forma técnica e racional, sem julgamento. O excesso de culpa gera promessas radicais, que raramente se sustentam.
Ela faz um paralelo com dietas restritivas: o efeito rebote. “Com as finanças é a mesma coisa. Cortes extremos, feitos para compensar excessos, tendem a falhar”.
O que funciona são pequenos ajustes, viáveis, sustentáveis ao longo do ano. “Um problema por vez. Um passo de cada vez.” A culpa não resolve, mas a consciência sobre o que aconteceu pode, sim, mudar comportamentos.
COMO SE PLANEJAR FINANCEIRAMENTE EM JANEIRO
Para Clariana, equilíbrio financeiro nasce da clareza, do autoconhecimento e da disposição para ajustar rotas com gentileza. Para isso, algumas dicas práticas para enfrentar janeiro com mais leveza e sem estresse.
- Faça um “raio-x” financeiro de 30 minutos: reserve meia hora, uma única vez, para listar quanto entra, quanto sai e quais compromissos já estão assumidos para os próximos meses. Sem planilha complexa, papel e caneta bastam;
- Crie um valor de respiro mensal: mesmo que seja pequeno, defina um valor livre no orçamento para imprevistos ou pequenos prazeres. Isso reduz a chance de decisões impulsivas ao longo do mês;
- Revise contratos e assinaturas esquecidas: streaming, aplicativos, academias, serviços pouco usados. Janeiro é um bom momento para checar o que segue sendo necessário e o que pode ser pausado ou cancelado;
- Combine dinheiro com quem divide a vida com você: conversar sobre expectativas, limites e prioridades financeiras diminui conflitos e decisões desalinhadas ao longo do ano.
- Tenha uma meta pequena e concreta para o trimestre: em vez de promessas anuais, pense em algo possível para os próximos três meses;
- Lembre-se: gastar menos não é viver menos: consumo consciente não tira qualidade de vida, aproxima o dinheiro do que realmente importa.
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MARIANA SUZUKI é, além de estudante de jornalismo, amante de livros e de gatos. Também vive entre livrarias e museus em busca de boas histórias. Claro, sempre com um bloquinho de notas na mão.
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Foto: Freepik




























